UMA RELIGIÃO QUE BUSCA O EQUILÍBRIO
Um dos
assuntos mais polêmicos, discutidos e comentados nas redes sociais são as
religiões. Muitas vezes não conhecemos inteiramente suas histórias nem suas
filosofias. Acabamos nos baseando na internet como fonte, o que muitas vezes é
perigoso. No mundo virtual nem sempre nos deparamos com a verdade. Um grande
exemplo disso é o Budismo.A curiosidade é uma das principais características dos seres humanos e nos leva a buscar incessantemente respostas e sensações diferentes. O Budismo tem suas peculiaridades e cada vez mais vem conquistando adeptos e instigando o interesse de muita gente.
Considerado sim, uma religião, o Budismo tem o Universo em si como deus. Os fieis seguem os ensinamentos daquele que é considerado Buda, que, segundo seus seguidores, foi alguém que despertou para as leis da natureza e passou seus ensinamentos para as pessoas. Acreditam que tudo que acontece em nossas vidas é reflexo de nossos carmas. Nossas ações podem gerar carmas positivos, negativos ou neutros. O positivo é gerado por ações cujo propósito é ajudar outros seres. O carma neutro é gerado por ações não intencionais. Já o negativo é gerado pelos atos que têm por finalidade prejudicar os outros e, para se livrar disso, pronunciam um mantra, que é uma espécie de hino dito de forma repetida tendo como objetivo relaxar e induzir a um estado de meditação em quem canta ou escuta. Além disso, praticam boas ações para acumular virtudes e se esforçam para eliminam o mal.
João Felipe Vieira, ou Gyouun Vieira, estudante de
Jornalismo, 24 anos, resolveu mergulhar nos mistérios desta religião. Se encontrou, e, no ano passado, foi ordenado monge. Os alunos Victor Souza e Fernanda Iwamoto foram conhecer um pouco do dia a dia de um
jovem que decidiu se dedicar inteiramente ao Budismo, desmentindo alguns tabus e
conhecendo mais profundamente uma crença que vem encantando mais e mais pessoas
por sua simplicidade, desapego ao material e busca pela paz.
Cerimonia de ordenação de João Felipe como monge.
Apresente o Budismo.
“O Budismo é sim uma religião, muita gente confunde dizendo que é uma filosofia de vida, que somos ateus, que não acreditamos em deus. Realmente, se você for comparar com o Cristianismo, com o Catolicismo e outras vertentes, nós não acreditamos nesse deus que eles falam. Porém, nós acreditamos que exista algo superior. Para os Budistas deus é o Universo em si. Todos nós somos um pedacinho dessa vida, dessa unicidade universal. Nós seguimos os ensinamentos de há mais de dois mil e seiscentos anos atrás, daquele que é considerado Buda. E ele não é considerado por nós como um deus, diferentemente do que muitos pensam. Ele mesmo disse que é apenas alguém que despertou para as leis da natureza. Ele dizia: "Existe algo superior a mim. Apenas sou uma pessoa privilegiada que despertei para isso, vi como funcionam essas leis, de ação e reação, interdependência, causa e efeito, e trouxe esses ensinamentos para vocês." Seguimos os ensinamentos dele, porém não o consideramos um deus. Como você pode ver aqui no templo, nós não temos imagens dele, nem imagens de nada. Em cada época, enquanto Buda era vivo, ele adaptou esses ensinamentos a cada pessoa, de acordo com a capacidade de cada ouvinte, e nos oito últimos anos anteriores à sua morte, ele deixou um ensinamento chamado Sutra Lotus, que substituiu todos os outros. Foi como a conclusão dos seus ensinamentos. O trabalho final dele é esse Sutra, o Sutra Lotus, que é o que nós seguimos ainda hoje. Consiste na pronúncia de um mantra, que é o "NAMUMYOUHOURENGUEKYOU", com o intuito de eliminar o nosso carma negativo. O que acontece de ruim em nossas vidas, todos os nossos elos negativos, são por causa desse carma que nós temos. Então, pronunciamos esse mantra, para eliminar o nosso carma negativo. As boas ações, claro, vão acumular virtudes, vão nos trazer elos positivos, porém só isso não é suficiente. O Budismo, em resumo, é fazer o bem e eliminar o mal.”
Gostaria que você contasse um pouco de como é seu dia a dia.
“Bom, meu dia a dia como monge aqui no templo é
acordar cedo, umas quatro e meia da manhã, fazemos a limpeza do templo, isso
até os praticantes chegarem. Quando eles chegam, às 7 horas da manhã, nós
começamos a cerimônia Budista que vai até mais ou menos 15 para as 8h. Depois
desse horário, nós temos as visitas agendadas, ou alguns cultos Budistas
residenciais, também agendados e fazemos isso ao longo do dia. Então depende
muito do que estiver marcado para o dia. Não há uma rotina fixa. Toda a
manutenção aqui do templo é nossa responsabilidade, a limpeza, as reformas,
enfim, a gente faz o que tiver para fazer. Nossa função, como monges, é
fomentar a prática Budista. Moramos no templo, cuidamos do templo para
que eles possam vir aqui e simplesmente praticar o Budismo.”
“Acho que como a maioria das pessoas que procuram
o Budismo, você, em algum momento da sua vida, passa por alguma dificuldade ou
uma fase difícil, não precisa ser nada de muito sério não. A gente quando é
jovem, muitas vezes, qualquer bobagem é o suficiente para você ficar
preocupado, chateado, depressivo. E eu procurei na filosofia Budista o que me
animasse. Vindo aqui ao templo, eu realmente senti uma diferença muito grande
na minha vida, praticando o Budismo, minha vida melhorou muito. Como pessoa eu
mudei. O Budismo não é uma religião que faz você receber coisas de fora.
Ninguém vem aqui e fica rico e sai dizendo “eu ganhei isso, ganhei aquilo.” Eu
acho que a melhor benção que eu recebi aqui foi eu ter mudado como pessoa. Eu
tenho as mesmas coisas, talvez eu tenha a mesma vida, a mesma situação, mas eu
vejo tudo isso de uma forma diferente e eu consigo ser feliz com essa nova
forma que eu vejo a vida.”
Existe algum tipo de hierarquia na religião?
“Sim, em primeiro lugar estão os praticantes. Todas as pessoas que frequentam o templo com o intuito de praticar o Budismo, são o mais alto grau da hierarquia. Abaixo deles estão os monges e os sacerdotes, entre os monges e os sacerdotes existe a hierarquia de tempo. A cada cinco anos você sobe um grau. Eu, por exemplo, sou do quinto grau. Os números vão diminuindo, então o sacerdote de quarto grau é superior a mim, aí vem o de terceiro grau, de segundo grau, primeiro grau e assim por diante, de acordo com o tempo de sacerdócio que ele tem. Mas os fiéis, os praticantes estão em primeiro lugar. É diferente a hierarquia. O clero não está acima do praticante.”
Como funciona o conceito de reencarnação no Budismo?
“Nós chamamos de renascimento. Nós acreditamos que essa energia que cada um tem que lhe torna vivo ela faz parte do Universo e sempre vai continuar fazendo. Assim como a lei de Lavoisier: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Essa sua energia, embora o seu corpo faleça, vai continuar fazendo parte do Universo, porém se transformará em outra coisa. E devido aos seus elos é que você vai renascer como humano. Uma vez que se está no estado humano, dificilmente você regride, porque você já tem elos para isso. Você renascerá e esse renascimento vai depender dos elos que você cultivou enquanto vivo.”
Como o budismo interfere na sua vida social e profissional?
“Não tem nenhuma regra rígida, a não ser o fato de que eu me dedico exclusivamente ao Budismo. Não tenho nenhuma outra atividade profissional paralela. Eu posso estudar, fazer a faculdade, assim como eu faço, pode namorar, pode casar, pode sair com os amigos, mas tenho que morar aqui no templo, porque ele é nossa responsabilidade, então ficamos aqui para poder cuidar dele. Mas fora isso, você pode constituir família, pode fazer várias coisas que uma pessoa normal faz, só que o seu trabalho é integral aqui.”
A castidade, então, seria um boato também?
“Sim, pelo menos nessa vertente do Budismo não
existe a castidade, muito pelo contrário. Você necessariamente, por exemplo,
pra ser o responsável por um templo, precisa ter uma família, você precisa
dessa experiência. Imagine que uma pessoa busque aconselhamento com você a
respeito da família ou a respeito dos próprios filhos. Como que você vai
aconselhar uma pessoa se você não sabe o que é isso? Se você não sabe o que
essa pessoa passa, porque você não tem. Então, um monge precisa sim ter essas
experiências. O Budismo, atualmente, não busca isolar o indivíduo da
comunidade, dos problemas da sociedade, pelo contrário, você tem que estar
inserido nesses problemas, você tem que lidar diretamente com esses problemas e, para te ajudar a fazer isso, você tem a prática budista.”Você faz jornalismo e é monge ao mesmo tempo. Como conciliar as duas coisas e quais são seus planos para o futuro?
"Faço Jornalismo para que a experiência do curso me
ajude na vida sacerdotal. Quando terminar a faculdade ficarei apenas como
monge. É uma missão para a vida toda, mas eu posso buscar coisas que agreguem
valor a jornada, como a faculdade, por exemplo."
O que você diria a alguém que tem curiosidade e gostaria de conhecer o
budismo?
“O mais importante é procurar o templo. Muita
coisa se encontra sobre o Budismo na internet, por exemplo, mas nem tudo é
verdade. Eu comecei procurando na internet, mas depois que eu conheci o
templo, eu vi que muita coisa daquilo que eu tinha visto lá não tinha
nada a ver com o que prega o Budismo. Geralmente, é alguém que inventou isso, que acaba misturando com algumas coisas do Budismo e fala que isso é Budismo. E,
como aqui no Brasil, se trata de uma religião pouco conhecida, as pessoas acham
que é verdade. Qualquer um fala qualquer coisa e, como ninguém conhece, acabam
acreditando. Portanto, o mais importante é: se você tem curiosidade, é procure um templo Budista para saber o que é realmente o Budismo e, quem sabe, poder praticar e ver
se isso se encaixa na sua vida!”
Para conferir a entrevista completa, clique aqui.
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AUTORIA:
Victor Camargo Martins de Souza
Victor Camargo Martins de Souza
Fernanda Iwamoto





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