De acordo com o Ministério da Saúde, 88% da população brasileira sofre com algum problema bucal, em sua maioria cáries. Uma pesquisa do IBGE em 2013 apontou que somente 29,2% da população brasileira que não tem escolaridade ou que não concluiu o ensino fundamental utiliza escova de dente, pasta de dente e fio dental para a higiene bucal e que 44,4% dos entrevistados procuraram um dentista no ano anterior a pesquisa, com a região sul liderando essa estatística, com 51,9%. No Brasil, somente 19,6% das pessoas que procuram atendimento odontológico vão a uma Unidade Básica de Saúde (UBS).
É na UBS Eldorado, localizada no Jardim Califórnia, mas que abrange vários bairros da zona leste de Londrina, que o dentista André Wilson Domingues Gomes, de 39 anos, trabalha.
André é graduado em Odontologia pela Universidade de São Paulo (USP - Bauru), pós-graduado em Saúde da Família pela Universidade Estadual de Londrina e em Acupuntura pela Escola Paulista de Medicina e, além de atender nessa UBS aproximadamente 15 pacientes por dia, recebe lá alunos estagiários de Odontologia da UEL. “É aqui que os casos mais difíceis chegam.”
André deixou claro que ele sempre preferiu atuar na área pública: “acho frustrante quando um paciente não tem condições de pagar por um tratamento e, por isso, não pode fazê-lo.” Optou por prestar concurso para o cargo que ocupa atualmente pela estabilidade proporcionada, “mas pelo salário, não compensa”. Procura manter-se atualizado em sua área de atuação para atender melhor e gostaria de poder fazer outra pós-graduação, mas a rede pública não oferece. Se quisesse se especializar teria que investir cerca de R$ 50.000,00.
Com a ascensão econômica da população da classe C, adultos passaram a procurar atendimento odontológico e ele foi o primeiro dentista a atender pacientes nessa faixa etária nas UBS em Londrina.
O dentista diz que o sistema público de saúde no Brasil é perfeito na teoria, mas que na prática ele se torna inviável, “é formulado por profissionais que não conhecem a realidade das pessoas que estão aqui.”No entanto, ressalta que o SUS oferece coisas boas também, como o fornecimento de diversos tipos de medicamentos e tratamentos e até fraldas geriátricas.
O mais gratificante para ele na profissão é conseguir devolver o sorriso e a autoestima de seus pacientes. Houve um caso de um paciente que conseguiu um emprego após receber tratamento odontológico, não somente por ter dentes bonitos, mas porque sua personalidade mudou com essa conquista.
André afirma que o que torna os funcionários da saúde pública frustrados é a falta de condições de trabalho, porque passam a se sentir impotentes e, com isso, o atendimento começa a ser mecânico, e cada vez menos humanizado. Já ficou sem receber produtos básicos durante meses, como pomada tópica para bebês e anestesia, o que o impossibilitava de atender.
Durante os anos em que trabalha no sistema público presenciou alguns casos marcantes. Certa vez em um posto de saúde na zona rural tentou salvar homem que estava tendo uma parada cardíaca, mas infelizmente não foi possível. Em outra ocasião uma mãe veio agradecer por ele ter conseguido uma vaga no hospital para seu filho de oito anos, que precisava ser internado por conta de uma infecção. “Ela disse que se eu não tivesse ligado lá para brigar, ele poderia ter sido o segundo filho que ela perderia naquele hospital, mas por meningite.”
Por conta destas e de muitas outras histórias, André se considera realizado e um bom profissional, principalmente em diagnósticos:“mesmo sem aparelho de raio-x, consigo diagnosticar 90% dos casos”.
É preciso que profissionais como o dentista André sejam reconhecidos, porque estamos acostumados a ver notícias somente sobre o que há de ruim na rede pública de saúde. Quando conhecemos alguém que gosta do que faz e valoriza a humanização no atendimento precisamos divulgar para que todas as pessoas, e principalmente aquelas que só reclamam dos serviços públicos, saibam que “nem tudo está perdido” e que ainda existem bons profissionais na saúde pública.
AUTORIA:
Camila Atamanczuk da Silva


Nenhum comentário:
Postar um comentário